quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cuba hasteou bandeira nos EUA e pediu fim do embargo

Fonte Diário de Notícias | 21/07/2015

Gesto marca reatar das relações entre os dois países, cortadas há 54 anos. A 14 de agosto, a bandeira norte-americana é içada em Havana.


A última vez que a bandeira cubana drapejou nos céus de Washington, Dwight Eisenhower estava na Casa Branca e Are You Lonesome Tonight?, de Elvis Presley, liderava o top de músicas nos EUA. Ontem, 54 anos e 11 presidentes norte-americanos (só dois cubanos) depois, a bandeira voltou a ser hasteada frente à embaixada de Cuba, numa cerimónia que marcou o reatar das relações diplomáticas entre os dois países. A 14 de agosto, será a vez da bandeira norte-americana subir aos céus de Havana.

Depois de mais de meio século de costas voltadas e 18 meses de conversações secretas com o apoio do Vaticano, o presidente norte-americano, Barack Obama, e o líder cubano, Raúl Castro, anunciaram a 17 de dezembro o início de negociações para o reatar das relações. A cerimónia de ontem frente à embaixada cubana (que por quase quatro décadas foi meramente secção de interesses), marca mais um passo nesse longo caminho.

"O acontecimento histórico que estamos a viver só fará sentido com a remoção do bloqueio económico, comercial e financeiro, que tanto dano e sofrimento provoca nos nossos povos, a devolução do território ocupado em Guantánamo e o respeito pela soberania de Cuba", afirmou o chefe da diplomacia cubana, Bruno Rodríguez, que presidiu à cerimónia, enumerando os entraves que do lado de Havana ainda falta ultrapassar. Só o Congresso (dominado pelos republicanos) pode acabar com o embargo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

BRICS: A GEOSTRATÉGIA POR TRÁS DA NOVA GEOECONOMIA

Fonte portal Brasil 247 | 11/07/2015

Em artigo especial para o 247, Marcelo Zero comenta o sucesso da cúpula de Ufá, na Rússia, que consolidou a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e do Acordo Contingente de Reservas (CRA), para ajudar países com dificuldades no balanço de pagamentos; "O grande risco do Brasil no atual cenário mundial não vem, portanto, do arrefecimento do ciclo das commodities e da crise internacional, que afeta todo o mundo. Na realidade, o grande risco do país provém de sua situação política interna e da cegueira estratégica de uma elite neocolonial que aposta obtusamente na volta a um passado de dependência e fragilidade", diz ele


Quando o economista do Goldman Sachs, Jim O´Neill, cunhou, em 2001, o acrônimo BRIC, referindo-se aos megapaíses emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, o termo não passava de uma expressão vazia, um mero exercício intelectual que pretendia denotar a crescente importância desses países para os investidores das nações mais desenvolvidas e seu potencial de gerar bons negócios para as firmas das grandes nações industrializadas. Os BRICs eram apenas uma nova fronteira de investimentos que se abria, no quadro de uma geoeconomia rigorosamente dominada pelos mesmos players de sempre.

Mal sabia ele que, 14 anos depois, em Ufá, Rússia, os BRICs, agora transformados em BRICS, com a adição da África do Sul, já seriam um importantíssimo e atuante bloco, que vem transformando a velha geoeconomia mundial e revolucionando a arquitetura financeira internacional.

Com efeito, na recente cúpula realizada na cidade fundada por Ivã, o Terrível, os BRICS fizeram algo que era impensável há uma década. Eles concretizaram seu próprio banco de investimentos, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB), e seu próprio Arranjo de Contingente de Reservas (CRA) para ajudar países em dificuldades. Criados na Reunião de Fortaleza, eles agora passam a operar. Os BRICS são, hoje, um bloco institucionalizado, que atua com desembaraço sobre a ordem mundial. 

Esses dois arranjos financeiros não surgiram por acaso. Eles sugiram de uma necessidade: as velhas instituições multilaterais surgidas no longínquo ano de 1944, em Bretton Woods, o FMI e o Banco Mundial, já não conseguem lidar com os desafios postos pela nova geoeconomia mundial. A UNCTAD, agência especializada da ONU para o comércio e o desenvolvimento, estima que os países em desenvolvimento precisariam de US$ 1 trilhão para aprimorar a sua infraestrutura. FMI e Banco mundial são incapazes de responder a esse desafio.

Afinal, trata-se de instituições esclerosadas, cuja governança não incorpora os interesses e os anseios dos novos atores globais. Elas continuam nas velhas mãos das antigas potências, agora fortemente atingidas pela crise mundial. Para se ter uma ideia, a China, segunda economia mundial, tem menos votos no FMI que o Benelux ( Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Além disso, são organismos dominados por obsoletas ideias paleoliberais, e exigem condicionalidades draconianas para fazer empréstimos. 

A tentativa de abrir mais espaço para os países emergentes nessas instituições multilaterais esbarrou no Congresso dos EUA, o qual até hoje não aprovou a modificação nas cotas e no sistema de votação do FMI e do Banco Mundial. Os EUA e a Europa continuam a ser seus mandantes privilegiados.

É uma situação absurda. Afinal, os BRICS têm 42% da população mundial e 26% do território do planeta. São responsáveis por 23% da economia mundial e 15% do comércio internacional. Não bastasse, eles detêm 75% das reservas monetárias internacionais. Além disso, os BRICS foram responsáveis por 36% do crescimento da economia mundial, na primeira década deste século. Com a recessão nos países mais desenvolvidos, esse número pulou para cerca de 50%, mesmo com a desaceleração recente do crescimento desse bloco. 

Em outras palavras, a importância dos BRICS não é só avassaladora, como vem crescendo ano a ano, mesmo com a crise tendo se abatido recentemente sobre seus membros. 

Enganam-se, contudo, aqueles que consideram os BRICS somente uma associação de caráter econômico. Na realidade, com a nova geoeconomia, na qual os BRICS são grandes atores em ascensão, cria-se também, inexoravelmente, uma nova geopolítica e uma nova geoestratégia.

É aí que a coisa se complica e surgem as resistências e as críticas ao bloco. 

Por trás da nova geoeconomia, há uma surda luta geopolítica e geoestratégica.

A China está passando por um processo de transição econômica que inclui uma calculada desaceleração. A economia chinesa, baseada em investimentos volumosos e em exportações de manufaturados, tem atualmente excesso de capacidade instalada em muitos segmentos econômicos (construção civil, energia, etc.) e precisa refazer a sua estratégia econômica, face à desaceleração do comércio mundial. 

Nesse sentido, a China vem fazendo um duplo movimento. Primeiro, aumentar o consumo doméstico, de modo a compensar o baixo dinamismo do comercio mundial. 

Segundo, e mais importante, reduzir a sua dependência em relação ao dólar e sua exposição às crises norte-americanas, face às suas gigantescas reservas nessa moeda, diminuindo a hegemonia do dólar norte-americano como grande meio de troca mundial e como reserva internacional de valor. 

A criação do NDB e do CRA e a expansão do banco da China, bem como os maciços investimentos desse país no exterior são parte de um processo que troca investimentos em títulos do tesouro americano (reservas) por investimentos em infraestrutura em países em desenvolvimento. Com isso, a China não apenas assegura o afluxo de commodities e influência geopolítica, como prepara as condições para que o renmimbi seja uma moeda mundial, competindo com o dólar. 

Outra disputa surda, mas intensa, que envolve o BRICS tange ao domínio da Eurásia. 

Em 1997, Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, publicou, na Foreign Affairs, um artigo intitulado Uma Geoestratégia para a Eurásia, que já antecipava algumas teses de seu livro O Grande Tabuleiro de Xadrez.

Nesse artigo, ele argumenta, com razão, que a Eurásia é o eixo geoestratégico do mundo, já que esse supercontinente, além concentrar boa parte do território e dos recursos naturais do planeta, conecta os dois grandes polos econômicos do mundo além dos EUA, a União Europeia e o Leste da Ásia. Para Brzezinski, é vital que os EUA tenham o controle desse supercontinente, caso queiram permanecer como a única e inconteste superpotência. 

Pois bem, a geoestratégia concebida por Brzezinski implicava várias ações de longo prazo concomitantes. Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico, como o anunciado recentemente. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia. Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Essa geoestratégia colidiu, obviamente, com o fortalecimento da Rússia sob Putin e a formação do BRICS. A crise da Ucrânia nada mais é que a expressão visível e aguda desse choque geoestratégico.

Para fazer frente a esses novos desafios, os EUA reordenaram sua geoestratégia, que antes estava centrada na luta contra o terrorismo e no Oriente Médio. A nova geoestratégia norte-americana, explicitada em 2012 com o documento “Sustentando a liderança global dos EUA: Prioridades para a Defesa do Século 21”, pretende se contrapor à crescente erosão de poder econômico e geopolítico dos EUA e aliados europeus e realizar movimentos de contenção da ascensão de países emergentes, notadamente os reunidos no BRICS. 

Fazem parte dessa contraofensiva a TPP, a Trasn-Pacific Partnership, que inclui países asiáticos próximos à China, mas que exclui Beijing, e a Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP), que pretende reforçar os laços econômicos entre os EUA e a União Europeia. 

Essa contraofensiva também implica o abandono parcial da política unilateralista de confrontação no Oriente Médio, que não funciona e consome volumosos recursos militares e estratégicos. Os investimentos no shale oil, mesmo com todos os problemas ambientais que geram, se inserem nessa tentativa de diminuir a importância do Oriente Médio, na nova geoestratégia norte-americana.

E o Brasil, como se insere, nesse tabuleiro geoestratégico?

Em primeiro lugar, é preciso considerar que o Brasil também é alvo da contraofensiva norte-americana. 

A recente distensão das relações entre os EUA e Cuba, por exemplo, faz parte de um movimento de reaproximação da única superpotência do planeta à América Latina e ao Brasil. O conflito com Cuba sempre significou um entrave desnecessário e obsoleto para uma relação mais fluida com os EUA. A eliminação desse entrave, do ponto de vista dos EUA, ajuda a abrir caminhos para uma retomada de sua histórica influência na região. 

A Aliança do Pacífico, um factoide do ponto de vista econômico e comercial, representa, na realidade, uma ofensiva geopolítica direcionada contra a integração regional, sob o disfarce de um regionalismo aberto voltado à integração assimétrica com os EUA e outras potências tradicionais. O alvo é o Mercosul e sua união aduaneira. 

A contraofensiva geoestratégica dos EUA passa, na América Latina, pela tentativa de desarticulação da integração regional liderada pelo Brasil e pela limitação da influência da China e da Rússia na região. 

Entretanto, essa contraofensiva não é necessariamente ruim para o país. Ao contrário, o Brasil pode se aproveitar dessas disputas para se projetar ainda mais no cenário mundial. 

Essa possibilidade esbarra, contudo, na total cegueira estratégica das nossas elites. 

Com o arrefecimento (não o fim) do ciclo das commodities e a crise que agora também afeta países emergentes e em desenvolvimento, ressurgiu com plena força o mito de que a recente política externa brasileira é equivocada e precisa se reorientar em direção ao seu “leito natural”, isto é, os EUA e demais potências tradicionais. Critica-se o Mercosul, a integração regional, a cooperação Sul-Sul, a parceria com os países emergentes e, é claro, também os BRICS, grande foro que o Brasil utiliza para se consolidar como liderança mundial. 

Para os que padecem dessa irremediável cegueira estratégica, o Brasil deve renunciar ao Mercosul e sua união aduaneira, à cooperação Sul-Sul e a um BRICS politicamente mais atuante e investir em acordos de livre comércio com os EUA e a União Europeia, de modo a se inserir celeremente nas cadeias internacionais de produção. Com a crise e a baixa das commodities, que demanda esforços para se aumentar as exportações, principalmente as exportações de manufaturados, em razão da óbvia contração da demanda interna acarretada pelo ajuste, essas teses ganharam contornos preocupantes de urgência. 

Ora, isso seria um erro gravíssimo. A integração regional absorve mais produtos manufaturados brasileiros que todos os países desenvolvidos somados. A competitividade dos nossos produtos manufaturados em nosso entorno regional está relacionada justamente à união aduaneira. Sem ela, nossos produtos não poderiam competir com bens chineses, norte-americanos, europeus, etc. O mesmo ocorre com os outros vetores da nossa política externa, como a cooperação Sul-Sul e as parcerias estratégicas com países emergentes. Foram esses vetores que nos permitiram expandir nossa participação no comércio mundial, de 0,88%, em 2000, para 1,43%, em 2011, e elevaram substancialmente o protagonismo internacional do Brasil. 

É claro que o Brasil, em sua condição de global player, tem de se aproximar mais dos EUA, da União Europeia e qualquer país ou bloco que queria, nesse momento de baixo crescimento do comércio mundial, estreitar seus laços de cooperação conosco. Mas o país tem de fazer isso a partir da posição de relevo e de alto protagonismo que conquistou justamente com esses vetores da política externa ativa e altiva, que nos livrou da antiga dependência e fragilidade dos tempos paleoliberais. Como membro do Mercosul e do BRICS, o Brasil pode muito mais.

A celebração açodada de acordos de livre comércio assimétricos com potências tradicionais, somada a uma desarticulação da integração regional e a um baixo investimento no BRICS e nas demais parcerias estratégicas com países emergentes, acabaria transformando o Brasil num grande México, o país da América Latina, que nos últimos 12 anos, apresentou o menor crescimento do PIB per capita na América Latina, à exceção da Guatemala. O país que tem 51% da sua população abaixo da linha da pobreza. 

Na recente viagem de Dilma aos EUA, Obama declarou, em alto e bom som, que seu país considera o Brasil não somente uma potência regional, mas também uma potência mundial. Não foi mera retórica diplomática. Foi constatação da verdade. 

Contudo, o Brasil só adquiriu esse status perante os EUA e os demais países do mundo porque fez aposta geoestratégica correta de investir na integração regional, na cooperação Sul-Sul e nas parcerias com os demais BRICS. O Brasil se converteu em grande ator mundial porque, em essência, investiu em seus próprios interesses.

O grande risco do Brasil no atual cenário mundial não vem, portanto, do arrefecimento do ciclo das commodities e da crise internacional, que afeta todo o mundo. Na realidade, o grande risco do país provém de sua situação política interna e da cegueira estratégica de uma elite neocolonial que aposta obtusamente na volta a um passado de dependência e fragilidade.

O centro da política externa brasileira tem de continuar a ser a integração regional a cooperação Sul-Sul e as parcerias estratégicas com emergentes, particularmente com o BRICS, que se tornou, de fato, um novo polo político que contribui para o multilateralismo e uma ordem mundial menos assimétrica. É isso que nos cacifa para termos uma relação mais proveitosa com os EUA. É isso que nos faz potência.

Entretanto, se os interesses retrógados internos preponderarem, talvez na próxima viagem aos EUA o Brasil não seja saudado nem como potência mundial, nem como potência regional. Seremos, de novo, apenas o quintal.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Como o terremoto financeiro chinês pode afetar o Brasil?

Fonte BBC Brasil | 08/07/2015

O terremoto financeiro que está ocorrendo na China poderá ter efeitos significativos no Brasil, segundo economistas consultados pela BBC Brasil.


A bolsa de Xangai caiu 30% nas últimas três semanas, acumulando perdas de mais de US$ 3 trilhões - cerca de 10 vezes o PIB da Grécia.

Nesta quarta-feira, o pregão chinês fechou em queda de 5,9%, após abrir com perdas de 8%. Foi um dia de "pânico" nos mercados chineses. No total, as negociações dos papéis de 1,3 mil empresas já foram suspensas.

Segundo especialistas, o mercado brasileiro pode ser afetado por essas turbulências principalmente de duas maneiras.

De um lado, a queda da bolsa chinesa contribuiria para aumentar a percepção de risco no mercado internacional, já abalada pela crise na Grécia.

"Como resultado, os investidores tendem a fugir dos mercados emergentes ou a cobrar um preço maior para colocar dinheiro nesses países", diz Marcel Caparoz, economista da RC Consultores.

A queda do real frente ao dólar nesta quarta-feira já seria um reflexo desse movimento de fuga dos ativos e moedas emergentes.

Em meio ao temor de um colapso no mercado chinês, a moeda americana chegou a R$ 3,23, maior valor em três meses. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, também fechou em baixa de 1,07%.

"Além disso, dependendo do modo como a crise afetar a economia chinesa, podemos ter um impacto importante sobre o preço das commodities e as exportações brasileiras no médio prazo", diz Caparoz.

Ele ressalta que, hoje, o minério de ferro, a soja e seus derivados representam um quarto das vendas externas do Brasil - e a China é, de longe, o principal mercado para esses produtos.

"Por isso, essas turbulências podem atrapalhar a recuperação da balança comercial brasileira em um momento em que o país procura retomar o crescimento", concorda André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos.

"Na realidade, empresas que produzem minério de ferro (como a Vale) já estão sofrendo com uma queda do preço do produto em função do desaquecimento chinês e essa queda no mercado chinês certamente não vai ajudar."


Novo 'crash'?


Para Perfeito, porém, algumas análises sobre as possíveis repercussões da queda da bolsa chinesa são exageradas.

O economista da Gradual diz que o mercado já estava monitorando os papéis chineses e esperando uma dinâmica de 'estouro da bolha'.

"É claro que essa queda preocupa e deve ser monitorada, mas também não deve ser nenhuma tragédia, nenhum 'crash de 1929' chinês", afirma.

Desde o início do ano, as ações das empresas listadas na bolsa de Xangai tiveram alta de mais de 140%, apesar da economia do país estar desaquecendo.

Muitos chineses chegaram a tomar empréstimos para comprar ações nesse período de bonança.


"Houve um descolamento entre o que ocorria na bolsa e os fundamentos da economia real, então era natural que alguma hora os papéis começassem a cair", diz Caparoz.

Isso ocorreu em meados de junho, quando os investidores começaram a achar que já estava na hora de vender seus papéis e realizar seus lucros.

Para conter a queda das ações, o governo anunciou um pacote de medidas.

A agência que supervisiona as maiores estatais do país, por exemplo, disse tê-las aconselhado a não vender ações "para garantir a estabilidade do mercado".

"Mas essas medidas parecem ter aumentado o medo de um colapso na bolsa e os papéis caíram mais ainda", diz o analista da RC Consultores.

Robert Peston, editor de economia da BBC, explica que o "terremoto financeiro chinês" até agora vinha causando menos alarme no cenário internacional que a crise grega porque esse prejuízo de "US$ 3 trilhões está sendo dividido entre cerca de 90 milhões de chineses em vez de apenas alguns governos europeus."

"Mas não se pode diminuir a importância política de 90 milhões de chineses se sentindo bem menos ricos", diz ele. "Até por isso, o governo chinês está tentando de tudo para encontrar uma saída para a crise, embora esteja fracassando em suas tentativas."

Peston dá como exemplo a determinação de que 1,3 mil companhias tenham a comercialização de suas ações suspensa.

"A lógica é que isso impediria o preço das ações destas empresas de cair ainda mais, já que esses papéis não podem ser comprados ou vendidos. Mas, isso significa que outros US$ 26 trilhões em riqueza, ligados a essas ações, estão completamente congelados."

Para Peston, o colapso também prejudica os esforços do governo chinês de fortalecer o setor privado no país.

"O setor público é, mais uma vez, o 'todo poderoso' da China", diz ele. "E se a queda dos mercados levar a mais uma grande desaceleração no crescimento da segunda maior economia do mundo, todos vamos sentir as ondas de choque."

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Alemanha não tem moral para dar lição na Grécia, diz Piketty

Fonte Exame | 06/07/2015

"A Alemanha é o país que nunca pagou suas dívidas. Ela não tem moral para dar lição em outras nações".

A frase é de Thomas Piketty, o economista francês que virou sensação mundial com o best-seller "Capital no Século XXI", sobre o aumento da desigualdade no mundo.

As declarações estão em uma entrevista publicada no jornal alemão Die Zeit ontem, antes da divulgação do resultado do referendo na Grécia (veja a tradução para o inglês).

Os gregos acabaram rejeitando os termos de um novo acordo de resgate com a Europa, o que pode acelerar a saída do país da zona do euro. Os mercados estão reagindo negativamente e o ministro de Finanças do país renunciou para facilitar novas negociações.



Paralelos


Piketty diz que a solução exigida pela Alemanha para a Grécia - acumular superávits para pagar a dívida lenta e gradualmente - pode até funcionar, mas é custosa e dolorosa.

A solução mais eficiente foi, ironicamente, o que permitiu a Alemanha se reerguer após a Segunda Guerra Mundial: uma combinação de reestruturação, perdão, inflação e novos impostos. Entre 1945 e 1955, a dívida alemã foi de 200% para 20% do PIB.

Na semana passada, sob protestos dos europeus, o próprio FMI divulgou um estudo mostrando que não há saída viável para a Grécia sem alguma reestruturação da dívida, ponto repetido frequentemente por seu primeiro-ministro.

"A história da dívida pública é cheia de ironia. Ela raramente segue nossas ideias de ordem e justiça", diz Piketty. Não é a primeira vez que ele opina sobre o assunto: em maio, ele já havia apontado a ironia histórica da situação.

Perguntado se o trauma das guerras não seria incomparável com o cenário atual, ele nota que a queda de mais de 25% do PIB que a Grécia sofreu nos últimos 5 anos é parecido com o que França e Alemanha experimentaram entre 1929 e 1935.

"A geração mais nova de gregos não carrega mais responsabilidade pelos erros dos seus mais velhos do que a geração mais nova de alemães nos anos 50 e 60. Precisamos olhar em frente", diz Piketty.

Piketty sugere uma conferência para reestruturar a dívida de vários países da Europa, não só da Grécia. Depois disso, seria criada uma nova instituição europeia composta por legisladores de todos os países e que tivesse o papel de determinar um limite para os déficits como forma a impedir mais endividamento.

"Se começarmos a chutar estados, então a crise de confiança no qual a zona do euro se encontra agora vai só piorar. Os mercados financeiros vão imediatamente se voltar contra o próximo país. Seria o início de um longo e arrastado período de agonia", diz Piketty.

E conclui: "Aqueles que querem perseguir a Grécia para fora da zona do euro vão acabar na lixeira da história".

domingo, 5 de julho de 2015

‘Jovens fascinados pelo EI nos jogam na cara nossos fracassos’, afirma ministra da Justiça da França

Fonte jornal O Globo | 05/07/2015

Alvo de racismo por detratores da legalização do casamento gay, Christiane Taubira vê uma Europa ‘desorientada’: ‘Habituou-se a tratar dos sintomas e esqueceu as causas’


A ministra chega falando português. Nasceu em Caiena, na Guiana Francesa, do outro lado do Oiapoque, o extremo Norte do Brasil. Na sua casa, sempre tinha muitos brasileiros por perto e ela jamais perdeu a intimidade com os vizinhos do outro lado da fronteira. A voz e os risos de Christiane Taubira, negra, 63 anos, quatro filhos, um metro e meio de altura, ecoam livres pelos salões pomposos do Ministério da Justiça e destoam da solenidade dos 300 anos que a contemplam no palácio da Place Vendôme. Não se parece com nenhum dos antecessores nos quadros da parede, não é filiada a partido algum, permite-se uma liberdade incomum entre políticos de imagens monitoradas por pesquisas.

Culta e eloquente, discursa sem jamais ler um texto, cita poesias de cor, seus autores preferidos são os porta-vozes da negritude — Senghor, do Senegal, Aimé Césaire, da Martinica. Lidera os bons combates do governo, aqueles que dividem, mas fazem o país melhorar. É dela o projeto de lei para legalizar o casamento gay, o que levou em 2013 milhares às ruas com palavras racistas e xenófobas contra ela — foi retratada como macaca num jornal de extrema-direita, insulto até então impensável na civilizada França.

Na criticada Lei de Inteligência, aprovada há dez dias para dar mais poderes na luta contra o terrorismo, foi voz discordante, brigou até garantir o direito dos cidadãos de apelar ao Conselho de Estado, em regime de urgência, se tiverem a privacidade violada. Tem embates memoráveis na Assembleia, é a voz forte de um governo fraco, aquela que marca pela defesa de ideais e valores. Livre, ela aponta as dores da França e da Europa nesse momento de crise de identidade, ameaças terroristas, angústia com o destino da Grécia e desorientação no trato com imigrantes.


O Palácio do Eliseu se reuniu para discutir terrorismo e Grécia. Com o que o governo está mais preocupado?

Impossível comparar. Se a Grécia sair da zona do euro, será um fracasso do projeto europeu, principalmente considerando a história da Grécia. Há oito anos que os gregos estão em dificuldades, fazem esforços pesados e não estou certa de que os responsáveis dessa situação foram identificados e punidos. Como ministra da Justiça, sou muito sensível a questões de justiça, vejo que os punidos são as pessoas que recebem pequenos salários e pensões, a quem pedimos sacrifícios há anos. A Europa é um grande espaço de solidariedade e ainda um espaço de prosperidade. Se não tem capacidade de amortizar o choque das dificuldades de um pequeno país, como a Grécia, isso é uma fragilização e a marca da vulnerabilidade do projeto europeu. Independentemente dos mecanismos financeiros, do montante da dívida, do reembolso. Tudo isso conta, mas não pode ser só isso. Será que a situação da Grécia não bota em questão o projeto europeu e, portanto, os que são encarregados de fazer viver a Europa?

Seis meses depois do atentado ao “Charlie Hebdo”, os ataques em três continentes. É uma guerra de civilizações ou uma guerra política?

Não falo de guerra de civilizações, não é uma civilização contra a outra, o terrorismo não é uma civilização. Não é uma guerra religiosa contra uma sociedade, porque os muçulmanos são os que mais morrem; nas regiões em guerra há atos terroristas todos os dias. É uma guerra política. Houve uma mudança a partir do momento em que o Daesh (Estado Islâmico, no acrônimo em árabe) teve um território vasto, com riquezas e um potencial econômico importante. São pessoas que têm um projeto político. As interpretações do Islã e a guerra aos infiéis são um pretexto, é um projeto político. Depois da Segunda Guerra, a Europa se habituou à ideia de que guerras têm regras — a convenção da ONU, por exemplo, estabelece crimes de guerra e define as sanções para os criminosos. O Daesh mostra que pode fazer guerra sem nenhuma regra, nós fomos pegos de surpresa. As convenções não valem nada para eles.

A senhora fica surpresa com o número de franceses engajados na jihad?

Surpresa não, mas mexida. Se olharmos o mapa, a Tunísia tem três mil, o Marrocos também, tem gente de todo lugar, mesmo das pequenas ilhas do Caribe. O número é grande e é importante trabalhar para impedir este recrutamento. O que o Daesh faz é monstruoso. Eles sabem disso, mas organizam a monstruosidade, usam o horror como uma maneira de chocar, criar um efeito psicológico, fazem um espetáculo odioso com as decapitações. O número de jovens franceses fascinados pelo Daesh não me surpreende, mas mexe comigo, eles nos jogam na cara alguns dos nossos fracassos. O que não fizemos ou fizemos mal para que jovens tenham perdido o amor pela vida? É a idade da alegria, da descoberta, da esperança, da confiança em si mesmo, da leveza em relação ao mundo. É um fracasso não darmos confiança no futuro a esses jovens fascinados pelo crime e pela morte.

A senhora escreveu que só se sentiu negra ao chegar na França. Como lida com os ataques racistas e xenófobos contra a senhora?

Esses caras são uns bobos, doentes, racistas, não ligo, não deixo esses ataques afetarem minha vida. Até 2013, achava que os insultos não me incomodavam nada. Mas afetavam meus filhos e demonstravam como muitas pessoas na sociedade recebiam os mesmos ataques. Portanto, era preciso combatê-los. Editores me pediram para escrever sobre essa experiência, eu disse que tinha outras coisas a fazer. Mas, em dezembro, estava em casa, em Caiena, os dossiês enormes para examinar à noite ficaram em Paris, comecei a escrever e percebi como os ataques tinham deixado feridas. Não sou frágil, não sou vulnerável, sou uma pessoa de combate. Fiz meus estudos em Paris, fui confrontada com o racismo na época, como deputada conheci o racismo aqui, não me deram um apartamento por causa da cor da pele. Não era novidade, mas ao parar e escrever — o livro se chama “Palavras de liberdade”— percebi que ninguém sai imune. Imagine como se sentem as pessoas que não conseguem emprego ou casa só por causa da sua aparência. Imagine pessoas que começam a duvidar delas mesmas por causa desses insultos. É terrível.

A senhora acha que a intolerância cresce na França? A islamofobia, o antissemitismo, a homofobia...

Acho, tudo vem crescendo. Existem questões objetivas que fazem as pessoas se fecharem: as dificuldades, o desemprego, a incompreensão do mundo. Mas há razões políticas, há coisas que se passaram no inconsciente coletivo francês. A prova é o crescimento da Frente Nacional e também homens e mulheres da UMP — a direita que era republicana — fazendo declarações racistas, xenófobas… Se um ex-ministro, um deputado, diz coisas desse tipo, o cidadão às voltas com dificuldades e com vontade de detestar alguém dá livre curso a seu ódio.

O arco-íris coloriu a Casa Branca após a decisão da Suprema Corte sobre casamento gay. Na França, a oposição era tão forte que não houve comemorações na aprovação do seu projeto de “casamento para todos”. E agora?

Sinto-me muito bem, tanto antes como agora. Já foi aceito pela sociedade. Ainda tem uns bobos que vêm todos os dias à Place Vendôme para protestar. São doentes… Saio daqui, 20h30 da sexta-feira eles estão aí, em pé. Têm uma vida triste.

A resposta dos governos ao problema dos imigrantes cruzando o Mediterrâneo é uma traição aos valores da Europa?

Não formularia assim. Mas é preciso lembrar à Europa os valores que criam sua identidade profunda. Se for menos fiel a seus valores, fragiliza sua própria identidade. A Europa está desorientada, habituou-se a tratar dos sintomas e esqueceu de indagar as causas. As pessoas chegam às costas italianas ou espanholas fugindo da desordem do mundo, portanto, a Europa tem de dar uma resposta condizente com seus valores fundadores: o humanismo, a solidariedade, o respeito ao ser humano. Não podemos só tratar o problema assim, há um trabalho de identificação das redes criminosas. Estas precisam ser combatidas, e os migrantes, acolhidos: dar o asilo nos casos necessários e, para os que fogem da miséria ou de mudanças climáticas, é preciso acolhê-los provisoriamente. Eles enfrentam todos os riscos porque é insuportável a vida em seus países, temos de trabalhar para que possam continuar, mais felizes, em casa.

Jornalistas a chamam de “insubmissa”, “advogada dos marginalizados”, “voz de esquerda do governo”. A senhora se identifica com esses rótulos?

Eu sou quem eu sou (diz em português e ri). Tenho ideais, uma vida de combates atrás de mim. Sou fiel a meus a compromissos e a mim mesma. Faço um trabalho de equipe sem renunciar a meus valores. Os combates têm um preço e o preço dos meus foi dividido: eu paguei e meus filhos pagaram também.

'Não' vence plebiscito na Grécia e país rejeita proposta de credores europeus

Fonte Folha de São Paulo | 05/07/2015

Em um resultado surpreendente, o voto pelo "não" venceu o plebiscito na Grécia neste domingo (5), rejeitando a proposta de socorro financeiro dos credores internacionais.

Com 100% dos votos apurados, 61,31% optaram pelo "não" e 38,69% pelo "sim".

O placar amplo contrariou todas as pesquisas, inclusive as realizadas neste domingo e divulgadas após o fechamento das urnas que previam uma vitória apertada do "não".

Com isso, os gregos rejeitaram a proposta de socorro internacional feito pelos credores, no caso, FMI (Fundo Monetário Internacional), BCE (Banco Central Europeu) e o bloco europeu.

Logo após os primeiros números serem divulgados, simpatizantes do Syriza, partido de esquerda do primeiro-ministro Alexis Tsipras, começaram a celebrar o resultado na praça Syntagma, no centro de Atenas.

A vitória do "não" representa um fortalecimento de Tsipras no seu país, já que ele convocou o plebiscito no último dia 27 depois do fracasso nas negociações em Bruxelas. Neste domingo, ele afirmou que "ninguém pode ignorar a vontade do povo", e voltou a dizer que a consulta era uma vitória contra a "chantagem".

Ao mesmo tempo, no entanto, o resultado pode aumentar a pressão para a Grécia deixar a zona do euro, principalmente se não chegar a algum tipo de acordo com o bloco nos próximos dias.

Tsipras tem dito que a Grécia não deixará a moeda única e que pretende retomar as negociações nesta segunda-feira (6) em busca de uma solução para o país. O ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, afirmou neste domingo acreditar na possibilidade de um consenso em 24 horas.

A questão é como os líderes europeus vão reagir: se pretendem sentar à mesa novamente com a Grécia ou, diante do recado do povo grego, romper definitivamente as relações. A chanceler alemã, Angela Merkel, tem um encontro marcado com o presidente francês, François Hollande, nesta segunda-feira (6) em Paris.

O principal drama dos gregos no curto prazo é o risco de colapso bancário a partir de terça-feira (7), quando as agências do país reabririam depois de uma semana de fechamento e controle de capital. O governo precisa de um novo socorro emergencial do BCE (Banco Central Europeu) para sua liquidez bancária, caso contrário, sem moeda no caixa, corre sério risco de ser forçado a emitir nova moeda em breve, conforme alertaram autoridades europeias nos últimos dias.


OPOSIÇÃO


O resultado do plebiscito fez com que o ex-premiê grego Antonis Samaras anunciasse sua renúncia como líder do partido de oposição Nova Democracia depois da sonora vitória do "não". "Nosso partido precisa de um novo começo. A partir de hoje, estou renunciando da liderança do Nova Democracia", disse Samaras em comunicado transmitido pela televisão.