domingo, 29 de janeiro de 2017

Casa Branca defende decreto migratório, execrado no mundo

Fonte Estado de Minas | 29/01/17

Manifestações, condenações internacionais e políticas: nove dias depois de chegar ao poder, Donald Trump enfrenta neste domingo uma avalanche de críticas, após sua decisão de fechar as fronteiras a todos os refugiados e a cidadãos de sete países de maioria muçulmana.

Milhares de manifestantes se reuniram neste domingo para protestar contra a medida em frente à Casa Branca, em Washington, em um parque com vista para a Estátua da Liberdade, em Nova York, em Boston (nordeste) e em outras cidades - e aeroportos - do país.

O presidente nada mais fez que cumprir suas promessas de campanha, defendeu seu porta-voz, Sean Spicer, em alusão à assinatura, durante toda a semana, de ordens executivas sobre saúde, imigração clandestina, combate ao extremismo ou petróleo.

Mas a decisão de Trump de fechar as fronteiras de forma seletiva, apesar de não ser tão ampla quanto sua promessa de campanha de proibir a entrada de todos os muçulmanos, provocou a maior reação desde a sua posse.

O decreto, que entrou em vigor na sexta-feira, proíbe o ingresso aos Estados Unidos durante 120 dias de todos os refugiados, seja qual for a sua origem, e durante 90 dias a cidadãos de sete países de maioria muçulmana: Iraque, Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

Consequentemente, 109 pessoas foram detidas desde a sexta-feira em sua chegada aos Estados Unidos, embora tivessem vistos válidos. Após a intervenção, neste sábado, de uma juíza federal de Nova York, a maior parte deles foi autorizada a entrar em território americano, mas a constitucionalidade do decreto ainda não foi questionada.

Mas o decreto continua em vigor no resto do mundo e as companhias aéreas se recusam a liberar para embarque os cidadãos dos sete países atingidos pela medida, embora tenham visto regular.

Críticas políticas

Nos Estados Unidos, a oposição democrata pediu a retirada do decreto anti-imigração e denunciou seu caráter contrário aos valores americanos e à sua ineficácia na luta contra a ameaça terrorista.

Não fará mais que "estimular quem pretende nos prejudicar", advertiu o líder dos democratas no Senado, Chuck Shumer.

No Partido Republicano, majoritário no Congresso, poucos legisladores se expressaram espontaneamente para defender o presidente. Um punhado de legisladores deste partido condenou total ou parcialmente o decreto de Trump, entre eles os senadores conservadores John McCain e Lindsey Graham.

"Infelizmente, tememos que este decreto nos enfraqueça na luta contra o terrorismo", afirmaram os dois conservadores, que advertiram, ainda, que os aliados de Washington na luta contra o grupo Estado Islâmico, são muçulmanos, em sua maioria.

Para o legislador republicano Justin Amash, o decreto parece estar mais motivado por questões políticas do que de segurança.

"Se a gente se preocupa com o radicalismo/terrorismo, por que não Arábia Saudita, Paquistão e outros?", escreveu no Twitter, em alusão a países não atingidos pelo decreto, mas de onde eram originários autores de ataques em solo americano.

"Os tribunais julgarão se foi longe demais", comentou com prudência, neste domingo, Mitch McConnell, líder da maioria no Senado à rede ABC.

Será, de fato, na Justiça que o destino do decreto será decidido. A sentença de urgência, determinada pela juíza de Nova York somou-se a outros três que bloqueiam as expulsões, embora nenhum faça referência à constitucionalidade ou não da decisão presidencial.

"Isto acabará provavelmente no Supremo", prevê Anthony Romero, diretor da poderosa União Americana de Liberdades Civis (ACLU), à rede CNN.

A Casa Branca, por sua vez, defende que se trata de um ato para "não deixar que se infiltre gente que pretende nos prejudicar", afirmou o porta-voz Spicer.

O Executivo terá que se defender também de uma acusação de discriminação religiosa. Após o período de 120 dias, o decreto estipula que será dada prioridade aos refugiados perseguidos em virtude de sua religião, uma frase que aponta implicitamente a proteger os cristãos de Iraque e Síria.

O presidente não deixou nenhuma dúvida a respeito desta preferência. "Os cristãos do Oriente Médio têm sido executados em massa. Não podemos permitir que esse horror se perpetue!", escreveu, este domingo, no Twitter.

Indignação internacional

Até agora, o Irã é um dos países mais atingidos pela grande quantidade de iranianos que têm vistos de trabalho ou de estudo nos Estados Unidos. Em resposta, Teerã instaurou medidas similares contra os cidadãos americanos.

Enquanto isso, as ondas de indignação atravessam o mundo muçulmano e a Liga Árabe denunciou neste domingo como "restrições injustificadas" as proibições impostas por Trump.

Na Europa, o presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel, somaram-se às críticas. segundo um porta-voz, Merkel explicou ao presidente Trump as obrigações determinadas pela Convenção de Genebra sobre a acolhida de refugiados, em sua conversa telefônica este sábado.

Bem-vindos ao Canadá

O Canadá, por sua vez, anunciou ter recebido garantias de Washington de que os cidadãos canadenses que tiverem dupla nacionalidade dos países incluídos no decreto não serão afetados pela proibição, informou o gabinete do premiê Justin Trudeau.

Neste domingo, um grupo de líderes da comunidade tecnológica canadense pediu ao governo em carta intitulada "A diversidade faz a nossa força" que conceda vistos de residência temporária às pessoas afetadas pelo decreto de Trump.

"Estamos todos afetados", escrevem mais de 150 membros da comunidade de empresas tecnológicas canadenses na carta aberta, apontando que o decreto assinado por Trump "já afetou vários membros de (sua) comunidade".

"As empresas tecnológicas canadenses são conscientes da potência da inclusão e da diversidade das correntes de pensamento e de que os talentos e as competências não conhecem fronteiras", escreveram os signatários, entre os quais estão dirigentes de Google, Facebook e incubadoras tecnológicas.

Neste sentido, pede que Ottawa adore um visto específico que permita às pessoas afetadas e deslocadas pelo decreto americano obter visto de residência temporária no Canadá.

À noite, o ministro canadense da Imigração, Ahmed Hussen, informou, em coletiva de imprensa, que o governo concederá residência temporária às pessoas que ficaram bloqueadas no país por causa do decreto de Trump.

No sábado, o premiê, Justin Trudeau, já havia reagido à medida adotada pelo país vizinho com um tuíte amplamente compartilhado, em que deu destaque à política de acolhida canadense.

"Aos que fogem da perseguição, do terror e da guerra, saibam que o Canadá os receberá independentemente da sua fé. A diversidade faz a nossa força #BienvenueAuCanada [bem-vindo ao Canadá])", escreveu Trudeau.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Por decreto, Trump retira EUA do TPP, tratado de livre comércio entre 12 países assinado por Obama

Fonte Opera Mundi | 23/01/17

Acordo Transpacífico era defendido pelo ex-presidente e ainda não havia sido aprovado pelo Congresso; novo mandatário disse também que reavaliará Nafta, acordo de livre comércio com México e Canadá

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta segunda-feira (23/01) no Salão Oval uma ordem executiva para tirar o país do TPP (Acordo Transpacífico), tratado de livre comércio assinado pelo então presidente Barack Obama e outros 11 países banhados pelo oceano Pacífico, do qual a China foi excluída, no início de 2016.

“O que acabamos de fazer é algo grande para os trabalhadores norte-americanos”, disse o presidente, que havia prometido durante sua campanha que tiraria os Estados Unidos do acordo comercial em seu primeiro dia no cargo. 

Apesar de simbólica – o TPP ainda não havia sido submetido ao Congresso, onde a maioria era contrária ao acordo – a medida de Trump é um dos reflexos da política de protecionismo defendida pelo novo presidente, que também afirmou que reavaliaria outro tratado comercial, o Nafta, do qual fazem parte México e Canadá, negociado por George H. W. Bush e aprovado durante o mandato de Bill Clinton.

Em um ato na Casa Branca neste domingo (22/01), o presidente confirmou sua intenção de iniciar em breve a renegociação do Nafta com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, com quem se encontrará no próximo dia 31, e com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

"O que queremos é um comércio justo", disse Trump durante um encontro com executivos nesta segunda-feira. "Vamos tratar os países de forma justa, mas eles têm que nos tratar de forma justa", afirmou.

Após o ato desta segunda-feira no Salão Oval, o senador republicano e ex-candidato presidencial John McCain emitiu um comunicado declarando que a decisão de sair do TPP é "um erro grave" com "consequências duradouras para a economia norte-americana" e a "posição estratégica" do país na Ásia-Pacífico.

O TPP, cuja negociação levou mais de seis anos e foi assinado no início de 2016 por EUA, Japão, Canadá, Chile, Austrália, Brunei, Malásia, Nova Zelândia, México, Peru, Cingapura e Vietnã, cria uma zona de livre comércio para 40% da economia mundial e era uma das peças centrais da estratégia defendida pelo ex-presidente Obama para competir comercialmente com a China. O acordo está em processo de ratificação nos Parlamentos dos países signatários para entrar em vigor.

Além de eliminar impostos, o TPP estabelece regras uniformes sobre a propriedade intelectual das corporações, além de abrir o fluxo de informação pela internet entre as nações, inclusive no Vietnã, que é comunista; e estabelece uma fiscalização única sobre o tráfico ilegal de animais e crimes ambientais. Além disso, o tratado também visa diminuir a influência na região da China, excluída do acordo.

Sindicatos trabalhistas, ativistas de direitos humanos e ambientalistas se opuseram ao acordo, justificando que o TPP beneficiaria apenas as grandes empresas, prejudicando trabalhadores e enfraquecendo leis de proteção ambiental.

Além da ordem sobre o TPP, Trump assinou nesta segunda-feira outro decreto que proíbe o uso de fundos governamentais para financiar grupos que pratiquem ou assessorem a realização de abortos no exterior e um terceiro para congelar as contratações do governo federal, exceto a das Forças Armadas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

PUBLICIDADE Por que o México extraditou o traficante 'El Chapo' aos EUA um dia antes da posse de Donald Trump

Fonte BBC Brasil | 20/01/17

Janeiro parece ser um mês marcante para Joaquín "Chapo" Guzmán, um dos criminosos mais conhecidos do mundo.

Em janeiro de 2016, o traficante mexicano de 59 anos foi capturado seis meses depois de uma memorável fuga de uma prisão de segurança máxima através de um túnel.

Em 19 de janeiro de 2001, ele começou a criar sua fama ao escapar pela primeira vez de uma prisão - dessa vez dentro de um carro da lavanderia.

Em outro 19 de janeiro, porém 16 anos depois, a era de quem havia sido o líder do poderoso cartel de Sinaloa e símbolo da acirrada guerra ao narcotráfico chegou ao fim.

Na tarde desta quinta, o governo do presidente Enrique Peña Nieto o entregou às autoridades dos Estados Unidos, onde é procurado por lavagem de dinheiro, associação criminosa e crimes contra a saúde pública, entre outros.

'A medalha não é sua'

O fato de ele ter sido enviado aos Estados Unidos poucas horas antes de Barack Obama deixar o poder e Donald Trump assumir a Presidência nesta sexta não passou despercebido.

"Não quiseram dar a vitória a Donald Trump. A extradição hoje era o primeiro momento legalmente possível e politicamente viável. Foi como dizer: sim, o extraditamos, mas a medalha não é sua, Trump", disse à BBC o especialista em segurança Alejandro Hope.

"De qualquer forma iriam extraditá-lo, a decisão estava tomada há um ano, independentemente do processo eleitoral americano, e iriam extraditá-lo na primeira oportunidade possível", explica.

"É coincidência demais para pensar que não há intenção política", disse à BBC Jorge Chabat, professor do Centro de Investigação e Estudos Econômicos (CIDE, na sigla em espanhol), do México.

"A intenção do governo mexicano é enviar uma mensagem de que está disposto a colaborar com os Estados Unidos, que, se Trump colaborar, uma relação frutífera em termos de segurança é possível".

Chabat acredita que a mensagem pode ter duplo sentido. "Pode ser a mensagem de que querem entregá-lo a Obama, mas também pode significar que estão colaborando, querem que Trump entenda que o México pode ser um bom aliado em vez de manter um conflito permanente".

Na noite de quinta, o governo negou um possível vínculo entre a decisão e a chegada de Trump.

"Não tem a ver com nada", disse Alberto Elías Beltrán, vice-procurador jurídico de assuntos internacionais da Procuradoria Geral da República (Ministério Público). "Hoje foi resolvido e nós deveríamos fazer a entrega imediata da pessoa solicitada pelos Estados Unidos de acordo com os termos do tratado internacional. Se não o fizéssemos, estaríamos deixando de cumprir as normas internacionais e especificamente o tratado entre México e Estados Unidos."

O processo

A Chancelaria mexicana havia aprovado a extradição em maio, mas os recursos que a defesa de Guzmán apresentou à Justiça atrasaram o processo.

O Ministério Público iniciou o processo de extradição assim que o governo mexicano capturou Guzmán em janeiro de 2016.

Isso representou uma mudança na política do governo. Em 2014, quando 'El Chapo' foi detido pela segunda vez, o então procurador, Jesús Murillo Karam, disse que ele deveria ser julgado primeiramente no México e cumprir sua sentença.

"Eu consigo aceitar a extradição, mas quando eu disser que sim. 'El Chapo' tem que ficar aqui, cumprir sua pena e depois extraditá-lo. Uns 300-400 anos depois, falta muito", disse o procurador na época..

Porém, a humilhação que sua fuga em 2015 representou para o governo e a possibilidade de uma nova tentativa parecem ter infuenciado as autoridades a fazer o possível para que Guzmán fosse enviado aos Estados Unidos.

"El Chapo" - que estava em fuga durante 13 anos e que fez do cartel de Sinaloa a organização de narcotráfico mais poderosa do continente, com presença em dezenas de países na América, Europa, Oceania e África - estava em uma prisão na cidade Juarez, na fronteira com os Estados Unidos.

Na tarde de quinta-feira, foi levado de avião rumo a Nova York, onde ele enfrentará a Justiça americana.

Para Martín Barrón, pesquisador do Instituto Nacional de Ciências Penais (Inacipe, na sigla em espanhol), a decisão de enviá-lo um dia antes da mudança de governo nos EUA pode ser o fechamento de um ciclo.

"É um gesto ao governo de Obama, a última peça de toda essa luta contra o narcotráfico que foi realizada desde 2006 e com a administração de Obama como interlocutora com os governos mexicanos".

"É como fechar um ciclo. De uma maneira ou outra, o governo Obama conseguiu impulsionar o Plano Mérida. E a sua captura foi uma espécie de êxito do Plano Mérida. A cereja do bolo é a entrega de Guzmán Loera', disse.

A horas do início do que promete ser uma etapa turbulenta nas relações entre os dois países, o México pode ter estendido a mão aos Estados Unidos. E, assim como outros aspectos do vínculo Trump-México que inicia nesta sexta, fica a incerteza sobre a interpretação do gesto e uma eventual reação.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Presidente do FMI contradiz Meirelles e afirma que prioridade deve ser combate à desigualdade social

Fonte BBC Brasil | 18/01/17

Após ouvir o ministro da Fazenda brasileiro, Henrique Meirelles, defender a necessidade de adotar amargas reformas, como o governo Michel Temer tem feito no país, a presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde afirmou nesta quarta-feira que a prioridade das políticas econômicas precisa ser o combate à desigualdade social.

O comentário de Lagarde ocorreu durante a participação de ambos em um painel do Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça.

Questionado pela moderadora sobre como convencer a classe trabalhadora a aceitar reformas que exigirão dela "grandes sacrifícios", Meirelles havia dito que o Brasil, diferentemente dos países ricos, não tem a tradição de uma classe média sólida, o que tornaria necessário o pacote de medidas - que inclui a instituição de teto para os gastos públicos, afetando áreas como saúde e educação.

"Nos países em desenvolvimento temos uma dinâmica diferente, não temos uma história de classe média crescente ou grande parte da população sendo classe média, como é nos países desenvolvidos. Isso é um fenômeno recente no Brasil", afirmou o ministro.

"Nos últimos quinze anos, vimos a proporção da classe média na população dobrar. E isso aconteceu ao longo da última década. Por causa da recessão que vimos nos últimos anos, essa dinâmica se inverteu, mas isso é um problema de curto prazo", disse Meirelles.

Lagarde respondeu na sequência.

"Não sei por que as pessoas não escutaram a mensagem (de que a desigualdade é nociva), mas certamente os economistas se revoltaram e disseram que não era problema deles. Inclusive na minha própria instituição, que agora se converteu para aceitar a importância da desigualdade social e a necessidade de estudá-la e promover políticas em resposta a ela", afirmou a francesa.

Desigualdade no foco

Meirelles também havia argumentado que os problemas brasileiros são recentes.

"Isso se deve à recessão dos últimos anos e está afetando a classe média e, em particular, a de baixa renda. Em resumo, a saída para uma economia como a brasileira é voltar a crescer de novo, criando empregos novamente e se modernizando abrindo o mercado de forma a se tornar mais eficiente", afirmou.

"Estamos em um outro momento do que as economias ricas. Estamos estabelecendo a classe média, fazendo ela crescer com a abertura da economia", defendeu.

Em sua fala, porém, Lagarde destacou que a desigualdade social precisa estar no centro das atenções dos economistas se eles quiserem um crescimento sustentável e, como consequência, uma classe média forte.

"Nosso argumento é de que, se há excesso de desigualdade, isso é contraprodutivo para o crescimento sustentável ao qual os membros do G-20 aspiram", disse.

"Se quisermos um pedaço maior de torta, precisamos ter uma torta maior para todos, e essa torta precisa ser sustentável. O excesso de desigualdade está colocando travas nesse desenvolvimento sustentável", afirmou, retomando a mensagem central do discurso de abertura que fez no Fórum de 2013.

Desemprego e Quarta Revolução Industrial

Um estudo do próprio FMI de 2013, assinado pelos especialistas Jaejoon Woo, Elva Bova, Tidiane Kinda e Y. Sophia Zhang, aponta que políticas de controle de gastos públicos resultam na geração de desemprego a curto prazo, o que contribui para a contração da classe média e o aumento do fosso social entre ricos e pobres.

O estudo mostra que pacotes de ajustes fiscais como o adotado pelo Brasil podem ter resultados adversos, dependendo das estratégias escolhidas na gestão pública.

"Pacotes de cortes nos gastos públicos tendem a piorar mais significativamente a desigualdade social, do que pacotes de aumentos de impostos", afirma o levantamento.

O documento de 2013 revisou políticas de ajuste fiscal executadas durante os últimos 30 anos por países desenvolvidos e em desenvolvimento.

A conclusão foi de que o primeiro reflexo de cortes nos gastos públicos é um aumento do desemprego e consequente aumento da desigualdade social, indicador medido pelo índice Gini - um coeficiente Gini 0 representa a plena igualdade, enquanto que 1 é o máximo de desigualdade.

Na média, um corte nos gastos da ordem de 1% do PIB gera aumento de 0.19 ponto percentual no nível de desemprego durante o primeiro ano, enquanto o aumento da desigualdade no índice Gini oscila de 0,4% a 0,7% nos dois primeiros anos, afirma o estudo.

Em termos amplos, é o desemprego gerado pelo corte nos gastos o grande vilão.

"De forma aproximada, cerca de 15% a 20% do aumento de desigualdade social por conta de pacotes fiscais ocorrem por causa do aumento de desemprego", diz o relatório.

Políticas públicas

No debate em Davos, Lagarde recomendou a escolha cautelosa de políticas públicas no contexto da quarta revolução industrial, de modo que governos como o do Brasil não olhem apenas para os desafios imediatos da globalização, mas se preparem para o futuro de longo prazo.

"Estamos agora em um momento muito oportuno para colocar em prática as políticas que sabemos que irão funcionar (…) Um momento de crise, como o ministro (Meirelles) disse, é o momento de avaliarmos as políticas que estão em ação, o que mais podemos fazer, que tipo de medidas tomamos para reduzir a desigualdade social?", questionou a presidente do FMI.

"Qual tipo de redes de apoio social temos para as pessoas? Qual o tipo de educação e treinamento que oferecemos? O que temos em ação para responder não apenas à globalização, mas às tecnologias que irão descontinuar e transformar o ambiente de trabalho no longo prazo?", acrescentou.

"Há coisas que podem ser feitas: reformas fiscais, reformas estruturais e políticas monetárias. Mas elas precisam ser graduais, regionais, focadas em resultados para as pessoas e isso provavelmente significa busca uma maior distribuição de renda do que há no momento", reforçou Lagarde.

À BBC Brasil o professor e ex-ministro do Planejamento e do Trabalho Paulo Paiva afirmou que a produtividade é o grande desafio que o Brasil tem pela frente para a retomada do crescimento e, a julgar pela história recente, os ventos demográficos não estão a favor do país.

"O crescimento econômico é composto de crescimento da força de trabalho e da produtividade. Tivemos dois períodos distintos na nossa história recente: de 1950 a 1980 e de 1980 até hoje", introduziu.

"De 1950 a 1980 a economia brasileira cresceu a uma taxa média de 7% ao ano. Se eu decompor esse número em crescimento da força de trabalho e ganho de produtividade, houve um aumento de 2,8% do PIB por causa da população e 4,2% de ganho de produtividade, que inclui melhor qualificação do trabalhador e ambiente de trabalho."

"De 1980 pra cá, decompondo o crescimento da mesma forma, 0,9% se de deu pelo aumento da população e 1,5% pelo ganho de produtividade. Então isso dá 2,4% de crescimento médio anual do PIB", acrescentou.

"O problema é que a partir de 2015-30 a população não vai mais crescer, então se o Brasil não fizer nada (para aumentar o ganho de produtividade) está fadado a um crescimento de 1,5% ao ano. Essa é a visão mais dramática que temos pela frente e você pode imaginar o impacto dessa quarta revolução industrial numa situação dessa."

Vendendo o Brasil

Depois do painel, Meirelles participou de entrevista coletiva em conjunto com o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

No encontro com a imprensa, ele buscou vender a ideia de que o Brasil está em plena recuperação - e de que é um bom momento para investidores estrangeiros aportarem no país.

O ministro reforçou que as reformas da Previdência e trabalhista irão permitir ao Brasil se beneficiar ainda mais da globalização.

"No caso dos emergentes, a globalização foi definitivamente positiva. No caso do Brasil especificamente, o que precisamos fazer é reformar a economia para obtermos maiores vantagens da globalização, porque esse não foi o caso até o momento", afirmou.

"O crescimento brasileiro no passado foi muito baseado no mercado doméstico. Temos que aproveitar melhor a globalização como outros emergentes o fizeram, e estamos caminhando nessa direção."

O Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, fez questão de apontar que o Brasil têm reservas da ordem de 20% do seu PIB e deverá utilizar esse recurso para manter as taxas cambiais dentro do esperado, amortecendo qualquer ataque ou volatilidade inesperada em relação ao real.

Meirelles também afirmou que a entrada de capital estrangeiro continua forte e que, diferentemente de outros emergentes, não se desenha no horizonte brasileiro o risco de uma fuga de capitais, conclusão que pesou para a decisão de cortar em 0,75 ponto percentual a Selic (taxa básica de juros) anunciada na semana passada.

"Não estamos vendo uma saída de capital que exija que o Brasil use suas reservas para segurar o valor de sua moeda. Muito pelo contrário, estamos em uma posição equilibrada. Estamos em uma recuperação econômica", afirmou.

"Apenas para dar os números que sustentam isso: o investimento estrangeiro direto no país está próximo de 4,4% do PIB e o deficit de conta corrente é de pouco mais de 1,1%, então há uma grande diferença, um é quatro vezes maior que outro", concluiu Goldfajn.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Obama diz que assentamentos israelenses inviabilizam solução de dois Estados

Fonte DCI | 10/01/17

Israel espera receber um tratamento mais favorável dos EUA sob o governo do sucessor de Obama, Donald Trump

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse em entrevista transmitida pela TV israelense nesta terça-feira que o apoio do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a assentamentos em territórios ocupados está tornando impossível um futuro Estado palestino.

"Bibi diz que acredita em uma solução de dois Estados e ainda assim suas ações consistentemente mostraram que ele está sendo pressionado a aprovar mais assentamentos que ele aprovará apesar do que ele diz sobre uma solução de dois Estados", disse Obama chamando Netanyahu pelo apelido.

Cerca de 570 mil israelenses vivem atualmente na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, ocupadas por Israel, que também são a casa de 2,6 milhões de palestinos. Israel capturou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental em uma guerra em 1967. Posteriormente o país anexou Jerusalém Oriental, em uma medida que não foi reconhecida pela comunidade internacional.

Obama, que deixa a Presidência dos EUA no dia 20 de janeiro, disse que nos últimos anos tanto ele quanto o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, apelaram pessoalmente a Netanyahu "por incontáveis vezes" para parar as atividades de assentamentos, mas esses apelos foram ignorados.

"O que se está vendo crescentemente é que os fatos no terreno estão tornando quase impossível, pelo menos muito difícil, e se essa tendência continuar, impossível, criar um Estado palestino contíguo e funcional", disse Obama ao programa Uvda, do Canal Dois.

Israel espera receber um tratamento mais favorável dos EUA sob o governo do sucessor de Obama, Donald Trump.

O republicano criticou a política de Obama para Israel e prometeu mudar a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém, irritando os palestinos. Ele também nomeou como embaixador em Israel um advogado que arrecadou dinheiro para um grande assentamento judeu.