Fonte Opera Mundi | 19/12/15
Chancelaria israelense aguardará até o fim de dezembro a aceitação ou recusa formal do governo brasileiro sobre indicação do ex-líder colono Dani Dayan
Nos últimos dois dias, a imprensa israelense tem reagido quanto à demora do governo brasileiro em aceitar — ou formalmente recusar — o ex-líder colono Dani Dayan como novo embaixador no Brasil, indicado pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, há quase quatro meses.
Segundo o Times of Israel, Brasília estaria segurando propositalmente o pedido de "agrément", esperando que, com isso, Tel Aviv entenda o recado e proponha um novo embaixador para o país latino-americano. Para o jornal, o Brasil "tem mantido um silêncio gelado sobre a nomeação, em vez de emitir a confirmação habitual".
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| Dani Dayan foi dirigente de associação de colonos judeus em territórios palestinos durante seis anos |
Já de acordo com The Jerusalem Post, as autoridades israelenses expressaram preocupação na sexta-feira (18/12) sobre a possibilidade de uma "crise diplomática com o Brasil". Um oficial do Ministério das Relações Exteriores de Israel consultado pelo veículo destacou que a chancelaria "ainda está aguardando a aprovação do governo brasileiro de Dayan como embaixador".
Até o Haaretz, jornal de orientação mais progressista em Israel, tem levantado temores a respeito de uma "séria crise entre os dois países nos próximos dias". À publicação, a chancelaria israelense explicou que decidiu que aguardará até o fim de dezembro, "antes de qualquer reavaliação da nomeação ou de um pedido de esclarecimento formal sobre o atraso".
No início desta semana, o então embaixador de Israel no Brasil, Rada Mansour, retornou a Jerusalém. Há meses, ele tem expressado ao gabinete de Netanyahu seu desejo de deixar o posto na capital brasileira. Desde então, a principal missão diplomática de Israel em Brasília tem sido gerida por seu vice, informou a imprensa local.
Entenda o caso
A nomeação de Dayan foi anunciada publicamente pelo governo de Netanyahu no dia 6 de setembro, surpreendendo o governo brasileiro, já que a divulgação foi contrária às normas diplomáticas que exigem que tal pedido seja feito de forma sigilosa.
Nascido em Buenos Aires e formado em Finanças, Dayan foi presidente do Conselho Yesha (2007-2013), órgão responsável por assentamentos judaicos na Cisjordânia que violam o direito internacional, bem como os acordos da ONU nos territórios palestinos.
As importantes posições ocupadas por Dayan na representação de organismos de colonos na Cisjordânia e a sua indicação abrupta e extraoficial por parte de Netanyahu são os dois principais motivos pelos quais — especula-se — o Itamaraty ainda não se posicionou quanto à aceitação do pedido de "agrément.
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| Desde início do mandato de Netanyahu, em 2009, número de casas construídas na Cisjordânia aumentou a cerca de 1.500 a 2.500 |
A indicação teve reação negativa de parte de políticos israelenses.Em entrevista em outubro aOpera Mundi, Mossi Raz, ex-deputado do partido de esquerda Meretz e líder de uma coalizão de direitos humanos em Israel, criticou a nomeação de Dayan.
“Ele [Dayan] era o líder de uma organização cuja essência violava o direito internacional. Se o Brasil aceitá-lo seria uma forma de reconhecer como legítimos esses assentamentos. O Brasil é um dos mais importantes e maiores Estados do mundo. Sua importância também advém do fato de que muitos palestinos e judeus vivem no Brasil”, afirmou Raz.
Em carta à presidente brasileira, Dilma Rousseff, o deputado Yousef Jabareen, da coalizão árabe-judaica de orientação socialista Joint List, pediu que não seja aceita a indicação de Tel Aviv. "Dayan tem repetidamente agido com desrespeito à lei e às normas internacionais, e tem liderado diversas iniciativas que violam diretamente os direitos fundamentais do povo palestino", escreveu.
Críticas do Brasil
Movimentos sociais brasileiros criticam a nomeação de Dayan em um manifesto assinado por mais de 30 organizações.
Para Sérgio Storch, membro do Juprog (Judeus Brasileiros Progressistas), a nomeação de Dayan gerou uma queda de braço nos bastidores. “Netanyahu, astutamente, não consultou o governo brasileiro com o pedido de agrément que é convenção na diplomacia. Com isso, o Brasil não pode dizer sim ou não, e ele pode vencer pelo desgaste e pelo cansaço”, argumentou.
Por sua vez, Pedro Charbel, coordenador latino-americano do Comitê Nacional Palestino de BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), declarou esperar que Dilma permaneça crítica à nomeação de Dayan. “Esperamos que a presidenta Dilma mantenha este posicionamento no caso de Israel seguir adiante com a indicação", falou.
Na abertura da Assembleia Geral da ONU no fim de setembro, Dilma já havia reiterado que, assim como não se pode postergar a criação de um Estado palestino que coexista pacificamente com Israel, não se poderia mais permitir a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia.

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